O dia 8 de Março tem sido, de há 100 anos para cá, para comemoração do Dia Internacional da Mulher e não deve ser uma data festiva, para as mulheres receberem flores ou presentes simbólicos, mas para recordar e homenagear as mulheres que têm lutado por um mundo para que a diferença de sexo não sirva como pretexto para a mulher ser considerada inferior ao homem e subordinada a ele, merecendo ser tratada com igualdade, liberdade e justiça social.
Este dia deve, também, servir para informar as mulheres, por esse mundo fora, que muitos avanços já foram conquistados e que cabe às mulheres continuarem a sua luta, sabendo que em muitas civilizações há muito caminho para percorrer e que as mais informadas e com direitos já adquiridos podem ajudar essas que vivem como que completamente abandonadas pelas sociedades onde estão inseridas, através das suas experiências e exemplos.
Para comemorar este dia, trago-vos o exemplo que uma mulher exemplar, que eu muito admiro e que nos deixou recentemente:
A escritora, letrista e actriz Rosa Lobato Faria, que partiu no dia 2, aos 77 anos.
Há cerca de dois anos Rosa Lobato Faria escreveu uma pequena "autobiografia" que foi publicada pelo Jornal de Letras e que copio para este Blogue.
Com afecto,
Joaninha
Autobiografia
de Rosa Lobato Faria
Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.



